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Como temperar chocolate

Atualizado em 20/set

Temperar chocolate é fazer a manteiga de cacau cristalizar na forma certa. É isso que dá brilho, estalo, contração para soltar da forma e conservação sem esbranquiçar. E é um processo que se decide em um grau.

Aqui não existe cozinha de testes. Cada número deste guia foi publicado por um fabricante, e está atribuído a ele. Isso importa mais do que parece: **os fabricantes não concordam entre si**, e quem tira média entre duas curvas erra as duas.

A Callebaut trabalha o chocolate amargo a **34 °C**. A ThermoWorks publica, para o mesmo amargo, uma temperatura de trabalho de **31,1 a 32,2 °C**. Não é erro de nenhuma das duas: são métodos diferentes. O que as duas concordam é que a janela é estreita, e é por isso que o seu termômetro importa tanto.

Passo a passo

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    1. Entenda o que você está tentando fazer

    A manteiga de cacau pode cristalizar de várias formas, e só uma delas é a que você quer. A Vonin, fabricante brasileira de temperadeira, descreve o objetivo com o nome técnico: formar **cristais beta V**. Quando eles predominam, o chocolate contrai ao esfriar, solta da forma, brilha e quebra com estalo. Quando não, ele fica mole, gruda na forma, fica fosco e esbranquiça com o tempo. As três etapas da temperagem, derreter, resfriar, reaquecer, existem para destruir todos os cristais, formar os beta V e manter só eles.

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    2. Derreter: o intervalo em que quase todos concordam

    É a etapa de maior consenso. A **ThermoWorks** publica 45 a 50 °C para o amargo e 40 a 45 °C para o ao leite e o branco. A **Vonin** publica 45 a 50 °C. A **Nestlé**, segundo a ficha levantada no piloto, derrete o meio amargo entre 45 °C e 50 °C. A **Callebaut**, no método com manteiga de cacau em pó, trabalha com 40 a 45 °C. O que todos evitam é o mesmo: passar muito de 50 °C, porque o chocolate queima, e queimado não volta. E repare que o chocolate ao leite e o branco derretem em temperatura mais baixa que o amargo, porque os sólidos de leite sofrem antes.

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    3. Resfriar: a etapa que forma o cristal

    É aqui que os beta V nascem, e aqui as escolas se separam. A **ThermoWorks** publica resfriar o amargo até **27,8 a 28,9 °C**, o ao leite até **26,7 a 27,8 °C** e o branco até **25,6 a 26,7 °C**. A **Vonin** publica resfriar até cerca de **27 °C** para formar os cristais beta V. Note que a janela do ao leite, na tabela da ThermoWorks, tem pouco mais de um grau de largura inteira. Um termômetro de ±1 °C não garante que você está dentro dela.

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    4. Reaquecer: a temperatura de trabalho, e a divergência

    O reaquecimento derrete os cristais instáveis e deixa os beta V. E é o ponto em que os fabricantes divergem de verdade. A **Vonin** publica 30 a 32 °C. A **ThermoWorks** publica 31,1 a 32,2 °C para o amargo, 30,0 a 31,1 °C para o ao leite e 28,9 a 30,0 °C para o branco. A **Callebaut**, no método dela, trabalha o amargo a **34 °C** e o ao leite a **33 °C**. Não misture as duas tabelas: siga a do fabricante do chocolate que está na sua mão, e se ele não publicar nenhuma, escolha uma escola e fique nela do começo ao fim.

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    5. Se o seu chocolate não publica curva

    Acontece, e com marca grande. A **Harald**, segundo o levantamento do piloto, não publica curva numérica: manda seguir a embalagem. Nesse caso, a ordem de prioridade é: primeiro, o que estiver impresso no pacote que você comprou; segundo, a curva publicada pelo fabricante para um produto equivalente da mesma linha, sabendo que é uma aproximação; e terceiro, uma tabela de terceiro, como a da ThermoWorks, assumindo que você está usando o método dela e não o de outro. O que não funciona é pegar a temperatura de derreter de um e a de trabalho de outro.

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    6. A forma também tem temperatura

    É a etapa que mais gente pula. A **Callebaut** publica que a forma deve estar aquecida a **26 a 27 °C** antes de receber o chocolate temperado. Forma fria choca a massa e estraga a cristalização que você acabou de construir. E ela também publica o que fazer depois: a casca endurece em geladeira a **14 a 16 °C** por poucos minutos; depois de fechado o bombom, **no mínimo 2 horas** a 14-16 °C; e o recheio **nunca acima de 28 °C**, para não derreter a casca por dentro.

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    7. Cada tipo de forma pede uma rotina diferente

    Esta é a informação que quase ninguém junta, e ela evita muito estrago. A **Callebaut**, trabalhando com molde rígido, manda geladeira a 14-16 °C e um mínimo de 2 horas depois de fechado. A **Silikomart**, para molde de silicone, publica outra coisa: encher, emborcar sobre uma grade e deixar **cerca de 4 horas à temperatura ambiente** até cristalizar. E a **BWB**, no sistema de três partes que o Brasil chama de forma de silicone, manda **geladeira uma única vez**, por cerca de 11 a 12 minutos, a Porto Formas publica ~12 minutos no modo de uso de um produto dela, e é o único tempo de geladeira declarado por fabricante brasileiro que encontramos. **Aplicar a rotina do molde rígido na forma de silicone é o erro silencioso mais comum.**

Dicas

Erros comuns a evitar

Perguntas frequentes

Por que meu chocolate ficou fosco e com manchas brancas?

É o sinal clássico de cristalização errada ou de conservação em temperatura oscilante. A Callebaut, no material de solução de problemas dela, aponta dois caminhos que levam a manchas foscas: chocolate pouco fluido, que não contrai o suficiente ao esfriar, e casca fina demais, que também não contrai e por isso não solta da forma. As duas coisas atrapalham o desmolde e deixam a superfície opaca.

Preciso de máquina para temperar?

Não, mas a máquina faz uma coisa que a mão não faz: segue a curva sozinha. A Vonin, que fabrica temperadeira no Brasil, descreve controladores PID seguindo uma curva de cristalização pré-programada. É diferente de uma derretedeira, que só derrete e mantém: nenhum dos quatro fabricantes brasileiros de derretedeira que levantamos publica a palavra temperagem, e os manuais mandam pôr o termostato em 75 °C, que é a temperatura da água do banho-maria, não a do chocolate.

Qual a temperatura certa para o chocolate branco?

Pela tabela da ThermoWorks, o branco funde a 40-45 °C, resfria a 25,6-26,7 °C e trabalha a 28,9-30,0 °C, as temperaturas mais baixas dos três tipos, porque ele tem sólidos de leite e nenhuma massa de cacau. Se o seu fabricante publicar uma curva própria para o produto que você comprou, siga a dele.

Dá para temperar na batedeira planetária?

Nenhum fabricante de batedeira responde a essa pergunta: a palavra temperagem não aparece em documento nenhum, de marca nenhuma, e ganache também não. A batedeira entra no trabalho com chocolate depois da temperagem, para ganache e massa aerada, e não durante.

Quanto tempo o bombom fica na geladeira?

Depende da forma, e os fabricantes divergem porque os produtos são diferentes. A Callebaut, com molde rígido, publica poucos minutos para a casca e no mínimo 2 horas a 14-16 °C depois de fechado. A BWB, no sistema de três partes, manda geladeira uma única vez, cerca de 11 a 12 minutos. E a Silikomart, em silicone, nem manda à geladeira: emborcar sobre grade e esperar cerca de 4 horas à temperatura ambiente.

Conclusão

Temperar chocolate é seguir uma curva, e a parte difícil não é a técnica: é descobrir qual curva é a sua.

O caminho prático é este. Primeiro, procure a curva impressa na embalagem do chocolate que você comprou. Se ela existir, é ela. Se não existir, procure o que o fabricante publica no site para a linha, a Callebaut publica, a Nestlé publica, e a Harald manda seguir a embalagem. Só depois, se nada disso existir, use uma tabela de terceiro, como a da ThermoWorks, do começo ao fim, sem misturar com nenhuma outra.

E resolva o termômetro antes de resolver a receita. A diferença entre o amargo e o ao leite na tabela da Callebaut é de um grau, e um aparelho de ±1 °C não distingue os dois. Os termômetros comparados mostram o que o mercado brasileiro publica, e o que ele não publica, que é exatidão validada na faixa em que a temperagem acontece.

Depois que a curva estiver sob controle, a forma é a próxima decisão: o comparativo entre policarbonato e silicone explica por que cada uma pede uma rotina diferente de resfriamento.

Redação Salon du Chocolat Bahia

Assinatura editorial do Salon du Chocolat Bahia. Lemos ficha de fabricante, rótulo e avaliação de quem já comprou para separar o que serve em cada etapa do chocolate caseiro, da barra de cobertura ao molde, e para destrinchar receita e técnica passo a passo.

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